Cuidado a Cuidado, reinventamos a Escola em conjunto

Opinião
14 Maio 2020

Por: Hugo Cruz Marques, Isabel Lacerda, Isabel Tootill, Jorge Cardoso, Sandra Fernandes, Sara Borges

Se fizermos o exercício de recuar algumas semanas no nosso tempo, conseguiremos, provavelmente, recordar o momento em que foi decretado o encerramento das escolas. Assistimos à escola, como a conhecemos e vivemos, a ter de se reinventar repentinamente. Percebemos, enquanto sociedade, que não há educação sem saúde, sem casa, sem educadores e educadoras que acompanham as crianças e jovens, sem famílias, sem recursos digitais ou sem acesso a um almoço decente.

Não há dúvida que a Escola mudou de formato: as salas de aula dispersaram-se entre várias casas, as famílias aproximaram-se do espaço de ensino-aprendizagem e as comunidades escolares reencontraram formas de se manterem ligadas graças à capacidade de readaptação, ao esforço e à criatividade dos e das docentes e das direções. Da sala de aula comprida e desordenada passámos aos quadrados bidimensionais das videochamadas, ao confinamento e ao isolamento social como medidas necessárias para realizarmos uma aprendizagem maior: a da nossa interdependência e corresponsabilidade por toda a gente e pelo planeta.

Cada Comunidade Educativa, enquanto promotora de espaços e tempos de construção de aprendizagens que vão muito além das curriculares e que focam as competências da autonomia, da responsabilidade e da cidadania ativa das crianças e jovens tem um papel essencial a desempenhar nesta aprendizagem maior.

Na FGS trabalhamos há mais de 10 anos com escolas na área da Educação para a Cidadania Global. Estes tempos de pandemia levaram-nos a reinventar os espaços de escuta, acompanhamento e reflexão com parceiros e participantes de projetos em contexto escolar, como o EDxperimentar (no qual a CooLabora é parceira), Escola Ser Vivo e Educação para a Cidadania. Temos feito um processo conjunto de trabalho no sentido de percebermos como podemos caminhar juntos, mesmo que quadrado a quadrado, para, enquanto participantes das comunidades escolares, apoiarmos as escolas neste novo contexto emergente de aprendizagens. De quadrado em quadrado, vamos passando ao Cuidado em Cuidado.

Partilhamos 3 pontos.

1. Ponto: O cuidado relacional como pedra angular das aprendizagens

Cuidar, nutrir e proteger as relações educativas e de aprendizagem colaborativa e intergeracional torna-se algo essencial neste novo contexto. É importante continuarmos a encontrar momentos e espaços não-formais online para percebermos como estão os e as alunas, bem como  os e as colegas e para, sem receios, falarmos deste momento como quem reconhece as dificuldades que faz emergir e como quem quer continuar a construir aprendizagens a partir das próprias experiências pessoais e coletivas. As redes sociais e as conversas em videoconferência, quando bem utilizadas e seguras, podem desempenhar aqui um papel importante para estudantes e docentes enquanto espaços de partilha de vivências e aprendizagens, de (re)construção e (re)invenção de sentidos coletivos.

2. Ponto: Manter a ligação ao mundo real e à sua complexidade multidisciplinar

Este tempo de confinamento e de vida digital tem revelado, de forma ainda mais urgente, a necessidade de se ir além da passagem de conteúdos curriculares e facilitarmos processos educativos que levem as crianças e os jovens a questionar o mundo para além do seu universo pessoal, como passo essencial para o conhecerem, compreenderem e se comprometerem com a sua transformação social. Este é um tempo que nos desafia a construir aprendizagens multidisciplinares, que colocam diferentes áreas do saber em diálogo colaborativo e que, de forma articulada, trabalham competências de pensamento crítico, de autonomia e de resolução de problemas.

3. Ponto: A participação como desafio constante e transversal

A educação e o trabalho à distância, que agora são a nossa base diária de trabalho, não invalidam a participação enquanto princípio fundamental de uma educação para a autonomia, a responsabilidade e a cidadania crítica. Pelo contrário, exigem de todas as instituições e agentes envolvidos na comunidade escolar, uma criatividade pedagógica apoiada num quadro ético de justiça e transformação social,  trabalhada a cada dia para se (re)construírem métodos participativos adaptados ao novo contexto. Neste sentido, a construção de espaços digitais síncronos, seja através de videoconferências, seja das redes sociais, pode e deve ser pensada de forma complementar com formas de participação analógica e/ou digital assíncrona. Este esforço reduzirá o risco de se estabelecerem relações educativas verticais e autoritárias que retiram às crianças e aos jovens a sua participação e autonomia.

Não sabemos o que vai ser a escola depois de passado este contexto excecional em que vivemos, mas consideramos que, seja presencialmente ou à distância, a educação tem um papel essencial a desempenhar na construção de comunidades locais, nacionais e globais mais justas e de democracias mais participativas e críticas.